O artigo apresenta um estudo sobre o uso da taipa de mão em uma habitação remanescente de quilombo no município de Barra do Bugres, no Mato Grosso. Com o Movimento Bandeirista, os portugueses levaram as técnicas com terra para as construções no interior do Brasil. Em Barra do Bugres, segundo os autores, o uso da taipa de mão retrata um conhecimento empírico, passado entre as gerações, além de ser uma técnica que possibilita a autoconstrução, a integração entre as pessoas durante a execução e, principalmente, por ser realizada com materiais autóctones têm um baixo custo. Na zona rural do município em estudo localiza-se o Território Quilombola Vão Grande composto por cinco comunidades: Baixio, Camarinha, Morro Redondo, Vaca Morta e Retiro. A habitação em estudo, construída em 1970, encontra-se em Morro Redondo. A partir da observação in loco e entrevista com o morador mais velho da residência foram obtidas algumas análises sobre a edificação em taipa de mão e madeira. Um dos primeiros aspectos observados foi à presença de um altar católico na sala, que, segundo o morador, foi uma tradição apreendida dos antepassados e replicada por todos da comunidade como forma de proteção à família. Em relação à espacialidade, a casa é composta por três blocos separados, sendo que o primeiro abriga a sala e os quartos; o segundo a cozinha e a despensa e o terceiro, o banheiro construído recentemente e localizado mais distante dos outros blocos. A taipa de mão está presente nos dois primeiros que têm a estrutura feita com troncos de árvores nativas, apresentando os pilares enterrados, paredes de vedação formadas por entramados de madeira amarrados com cipó e recobertos com a terra local acrescida de casca de feijão para aumentar a resistência. Além da cobertura em palha, que, conforme a tradição foi retirada ainda verde durante a lua minguante pelo proprietário. O piso é feito da própria terra e está acima do nível do terreno para evitar entrada de água. Já o bloco do banheiro foi construído com tábuas de madeira e telhas de fibrocimento, porém é composto apenas pelo chuveiro. Esse aspecto afeta a sustentabilidade da habitação, pois, apesar de a construção não gerar resíduos e utilizar materiais autóctones, todos os dejetos produzidos pelos moradores são eliminados diretos na natureza, reflexo também da falta de saneamento básico na região. Em relação ao conforto ambiental, foi observado que a sensação térmica interna permaneceu menor que a externa, em função da terra das paredes que retém a umidade, dos grandes beirais que protegem as paredes do sol e da cobertura em palha que permite a passagem do ar e funciona como isolante térmico. Apesar das poucas esquadrias, outras técnicas para ventilação cruzada são utilizadas, como o entramado da parede não ser preenchido com terra até o topo e as aberturas serem em paredes opostas. Na cozinha, algumas paredes são compostas apenas de madeiras verticais, permitindo frestas para liberação da fumaça. Em relação à estética da casa, o morador tem interesse em colocar materiais de acabamento, pois prefere melhorá-la e ampliá-la do que morar em uma casa de alvenaria que afirma ser desconfortável. Os autores reafirmam que a taipa de mão tem um significado cultural nessa região. As construções têm um viés sustentável por conta dos materiais utilizados, mas a falta de saneamento básico é um fator crítico. Além disso, a taipa de mão foi considerada adequada ao clima da região, mas algumas adaptações, como acabamento interno e externo e a adequação aos critérios de habitabilidade poderiam contribuir para a manutenção da tradição local.