O artigo é um estudo sobre as modificações introduzidas no desenho original de dois conjuntos residenciais da Região Metropolitana do Recife, com riqueza de imagens. O conjunto residencial Morada do Recife Antigo, complexo habitacional de classe média, foi construído em Novo Prado e consiste de 960 apartamentos de 60 m² em 40 edifícios de seis pavimentos sobre pilotis. Estes são distribuídos em cinco sub-condomínios denominados de “quintas”, delimitadas apenas simbolicamente, cada uma com oito edifícios em forma de H, agrupados dois a dois, totalizando 192 apartamentos. O conjunto tem uma via privativa principal para circulação de veículos e vias secundárias para pedestres de acesso aos diversos edifícios. Em cada quinta, os edifícios voltam-se para o espaço comum de lazer, uma grande praça privativa.Após a entrega das primeiras unidades, uma modificação retificou o domínio físico, com o fechamento dos limites de cada quinta e dos pilotis e a instalação de portões eletrônicos e guarita, criando-se ilhas espaciais conectadas a um sistema de circulação comum e materializando-se uma delimitação legal e simbólica. O controle das áreas comuns foi reforçado por sinais que desencorajam o seu uso como passagem. O Conjunto Habitacional Cohab Curado foi construído no município de Jaboatão dos Guararapes num assentamento isolado e de tecido fragmentado. O Cohab Curado 3 tem 1.406 unidades habitacionais, 77% das quais são apartamentos de dois ou três quartos, com área variando de 44 a 50 m², agrupados em edificações de três ou quatro pavimentos, sem pilotis, construídos em alvenaria estrutural. O princípio compositivo das quadras multifamiliares é a repetição de blocos em H, arranjados dois a dois, paralelos entre si. Nenhum edifício manteve a forma original, com ampliações em todas as direções. A transformação mais significativa é a busca do morador pelo acesso direto da rua, do térreo aos pavimentos mais altos. As modificações são implementadas pelos moradores, principalmente por meio da ocupação dos espaços livres da quadra. Os espaços públicos destinados ao acesso, circulação ou lazer dos moradores são ocupados pela expansão das unidades e pela construção de equipamentos de comércio e serviços. O padrão original dos espaços intersticiais entre os blocos com pouco controle de acesso, transforma-se em uma sucessão de pátios, vielas e passagens, em configuração semelhante aos assentamentos autoproduzidos. Nas quintas, as modificações concentram as linhas mais acessíveis no seu interior, controlado diretamente pela guarita, aumentando o encontro entre os moradores e restringindo o movimento de estranhos. No conjunto popular, as linhas mais acessíveis concentram-se na periferia da quadra, diferenciando o movimento de pedestres entre o seu interior e exterior, definindo mais claramente gradientes de privacidade assim como a interface público/privado. A transformação da estrutura espacial do conjunto explicita as propriedades polares típicas do tecido urbano tradicional, com o restabelecimento de sua lógica: relação entre espaços fechados e espaços públicos, expressa pela dualidade frente/fundo e público/particular. Com um sistema hierárquico de movimento, separa-se claramente aquilo que é público daquilo que é particular. Ou seja, a desconexão entre a desordem popular e a ordem da classe média é apenas aparente.